quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Hesíquio, O Sinaíta

A PEQUENA FILOCALIA



O Livro Clássico da Igreja Oriental





HESÍQUIO, O SINAÍTA

(séculos VIII-X)







Hegúmeno de Nossa Senhora da Sarça (Batos), no Sinai; autor de duas centúrias sobre a sobriedade e a virtude (P.G. t. 93, c. 1480). Posterior a João Clímaco e a São Máximo, que ele utiliza. Hesíquio inculca uma noção muito simples da vida espiritual, que ele repete incansavelmente ao longo de seus 200 capítulos. Para ele, tudo está na atenção, na sobriedade ou ainda na hésychia, da qual as duas primeiras são o objeto, o meio e o fim ao mesmo tempo.

Combatei os pensamentos e não haverá mais pecado, pois o pecado começa no declive criado por uma primeira representação que não se fez parar, por não se ter sabido distingui-la. É questão de atenção. E de graça: daí vem o segundo principio, da invocação de Jesus, da oração monológica a Jesus. A resistência ao pensamento passa-se em três momentos: vigilância perpétua para descobrir o pensamento intruso, bom ou mau; resistência e mobilização da ira sã (a "ira segundo a natureza") contra o indesejável; finalmente, a simples invocação, unida à respiração, que torna saudável e puro o ar do coração. A história dessa atenção ligada à Oração de Jesus é a mesma do progresso espiritual. Começa por uma escada (a observação dos mandamentos, as virtudes), depois ela nos abre um livro (a ciência dos seres, as contemplações inferiores); e por fim introduz, na Jerusalém espiritual, a visão de Cristo (a "teologia") na luz de nossa alma.

As duas centúrias já apresentam essa simplificação que surpreende em Nicéforo, o Solitário: a perfeição espiritual é absorvida pela atenção e pela Oração de Jesus. Sem a famosa técnica e, mais tarde, a contribuição palamita sobre a visão da luz do Tabor, Nicéforo e o pseudo-Simeão não passariam de pura e simples reedição de Hesíquio.









PRIMEIRA CENTÚRIA





1. A sobriedade é um método espiritual que,

com a ajuda de Deus e mediante uma pratica re¬gular e firme, liberta-nos inteiramente dos pensamentos e palavras apaixonadas, bem como das ações más. Dá um conhecimento seguro do Deus incompreensível e resolve de maneira secreta os divinos e secretes mistérios. Ela cumpre todos os mandamentos do Antigo e do Novo Testamento e consegue todos os bens da vida futura. A sobriedade, é, antes de tudo, aquela pureza do coração que sua excelência e sua beleza, ou mais exatamente nossa negligencia e nossa desatenção tornaram tão rara entre os monges destes tempos e que Cristo beatificou: “Bem-aventurados os corações puros porque verão a Deus” (Mt 5,8). Por essa razão, ela é de grande valor. A sobriedade guia o homem que a pratica com perseverança, numa vida justa e agradável a Deus. É, alem disso, uma escada que conduz à contemplação; ensina-nos a reger convenientemente os movimentos das três partes da alma (razão, irascível e concupiscível), a vigiar com segurança os nossos sentidos; e aumenta, de dia para dia, as quatro grandes virtudes.

2. ... “Cuida que não te venha ao coração um pensamento secreto” (cf. Dt 15,9). Moisés, ou antes, o Espírito Santo, entende que isso é a simples aparição de um objeto mau, em repulsa a Deus, o que os Padres chamam de sugestão. Oferecida ao coração pelo diabo, logo após ser apresentada à inteligência, e seguida por nossos pensamentos, que começam então uma conversa apaixonada com ela.

3. A sobriedade é o caminho de todas as virtudes e de todos os mandamentos de Deus. Consiste na tranquilidade do coração e num espírito absolutamente preservado de qualquer imaginação.

5. A atenção é um coração em permanente repouso (hesíquia) de todo pensamento, que só respira e invoca ininterruptamente o Cristo Jesus FiIho de Deus; que combate, intrépido, a seu lado e confessa Aquele que tem poder de perdoar os pecados. Que a alma, através de uma invocação constante, abrace Cristo, que escruta em segredo os corações; que ela se aplique em esconder completamente, aos homens, sua alegria e combate interiores. O Maligno não encontra mais passagem por onde introduzir sua malicia no coração e destruir a obra perfeita, entre todas.

6. A sobriedade é uma sentinela imóvel e perseverante do espírito, à porta do coração, para perceber sutilmente os que se apresentam, escutar suas conversas, espiar as manobras desses inimigos mortais; para reconhecer a marca demoníaca que tenta, pela imaginação, devastar nosso espírito. Essa obra, corajosamente conduzida, vai dar-nos, se quisermos, uma experiência muito prudente do combate interior.

7. O duplo temor, os desamparos e as provas pedagógicas que Deus usa conosco têm, como efeito natural, criar uma continuidade solida de atenção, no espírito do homem que se esforça para obstruir a fonte dos maus pensamentos e ações. É a razão dos desamparos e das tentações inopinadas, enviadas por Deus, para corrigir nossa conduta, principalmente se, depois de provar a doce paz da atenção, caímos na negligencia. O esforço incansável gera o hábito; este, uma certa continuação da sobriedade que, por sua vez, consegue pouco a pouco uma visão direta do combate, seguida da oração perseverante de Jesus, o suave repouso de um espírito livre de imaginação e do estado estabelecido por Jesus.

11. “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor, Senhor!’ entrará no reino dos céus, mas aquele que pratica a vontade de meu Pai” (Mt 7,21). Ora, a vontade de Deus é “detestar o mal” (Sl 97,10). Pela Oração de Jesus, detestemos os maus pensamentos, e está cumprida a vontade de Deus!

13. Vou indicar, em seguida, de quantas maneiras, a meu ver, a sobriedade purifica o espírito dos pensamentos apaixonados...

14. A primeira forma de sobriedade consiste em vigiar rigorosamente a imaginação e a sugestão, pois sem a imaginação Satã é incapaz de formar pensamentos, para apresentá-los ao nosso espírito e iludi-lo com sua mentira.

15. A segunda forma consiste em guardar sempre o coração num silêncio e numa profunda trégua de tudo. E orar.

16. A terceira consiste em chamar Jesus em nosso auxilio incessantemente, com humildade.

17. Outra, em conservar ininterruptamente na alma a lembrança da morte.

18. Todas essas praticas detém os maus pensamentos, à maneira dos janízaros. Sobre o método importante, que consiste em olhar apenas para o céu e considerar a terra como nada valendo, vou alongar-me mais em outra ocasião, se Deus quiser.

20. O combatente espiritual deve, a todo instante, possuir quatro coisas: humildade, extrema atenção, contradição e oração. A humildade, porque esse combate opõe-nos demônios, inimigos da humildade, de moda a conservar, ao alcance do coração, o Senhor, que detesta os orgulhosos. A atenção, para impedir que o coração encerre qualquer pensamento, sejam quais forem suas boas aparências. A contradição, para que, vendo perfeitamente o recém-chegado, seja possível replicar-lhe com ira, no mesmo instante. A oração, logo após a contradição, para gritar do fundo do coração, para Cristo, com inexprimível gemido. Então, o combatente verá o inimigo dissipar-se no nome santo e adorável de Jesus, como a poeira ao vento, e desaparecer como fumaça, com suas imaginações.

21. Quem não tem a oração pura de pensamentos, está desarmado para o combate; quero dizer, a oração praticada incessantemente no santuário profundo da alma, para expulsar a chicotadas e eliminar o inimigo invisível, pela invocação de Jesus Cristo.

22. Que os olhos do vosso espírito permaneçam sempre vivos e atentos para reconhecer os recém-chegados. Uma vez reconhecidos, esmagai a cabeça da serpente com a contradição, ao mesmo tempo em que, gemendo, chamareis Cristo. Recebereis então o sentimento direto do socorro invisível e vereis distintamente a integridade do vosso coração.

23. Quem tem nas mãos um espelho e esta no meio de outras pessoas enquanto olha nesse espelho, vê nele o seu próprio rosto e os dos outros, que ali se refletem. Assim também, quem olha dentro de seu coração com muita atenção, vê o estado próprio e as faces dos demônios invisíveis.

24. O espírito, entregue a seus próprios meios, é incapaz de vencer a imaginação demoníaca. Que ele não se arrisque! Temos inimigos tão astutos, que fingem a derrota, para nos fazer tropeçar na vaidade; mas, diante da invocação de Jesus, não vão aguentar-se nem usar de astúcia um só minuto mais.

27. Aqui estão um exemplo e uma regra para o silêncio (hesíquia) do coração. Se quereis lutar, tomai como exemplo esse bichinho, a aranha. Se não (se não vos conduzis como a aranha), ainda não tendes todo o necessário silêncio de espírito. Esse animalzinho apanha pequenas moscas. Se imitais sua quietude (hesíquia), com a alma compungida, não cessareis de exterminar os filhos da Babilônia.

29. Se passais todo o tempo em vosso coração, na humildade de pensamento, na lembrança da morte, na contradição e na invocação de Jesus Cristo; se, todo dia, seguis na sobriedade e munidos dessas armas, o caminho interior, estreito mas gerador de alegria, atingireis as santas contemplações das santas realidades. “Cristo, em quem se acham escondidos todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento” (Cl 2,3) iluminará para vos os mistérios profundos... Então percebereis, em Jesus, que o Espírito Santo precipitou-se sobre vosso coração; Aquele que ilumina o espírito do homem para fazê-lo “ver com a face descoberta a glória do Senhor” (2 Cor 3,18).

30. Os que gostam de se instruir devem saber que os demônios muitas vezes nos distraem, por inveja, e reduzem nosso combate interior; porque vêem, com despeito, a preciosa ajuda que ele presta a subida para Deus, e o conhecimento que nos consegue. Desse modo, por causa de nossa negligência, apossam-se de repente de nosso espírito e tornam alguns de nós desatentos ao coração. Toda a sua ambição e todos os seus esforços visam a impedir que nosso coração seja atento: eles sabem que enriquecimento traz à nossa alma a pratica diária da atenção. Mas apliquemo-nos, então, às contemplações espirituais com a lembrança de Nosso Senhor Jesus Cristo, e o combate se reavivará em nosso espírito...

39. “O diabo vos rodeia como um leão a rugir, procurando quem devorar” (1 Pd 5,8). Não deveis jamais interromper a atenção do coração, a sobrie¬dade, a contradição e a Oração de Jesus Cristo, nosso Deus. Em toda a nossa vida, não poderíamos encontrar ajuda mais excelente que em Jesus.

41. Quanto mais abundante for a chuva, mais

amolecerá a terra. Quanto mais assiduamente invocarmos o nome de Cristo, independente de todos os

pensamentos, mais ele amaciará a terra de nosso

coração, mais a penetrará de júbilo e de alegria.

42. É útil que as pessoas de pouca experiência

saibam ainda isto: quando estamos abatidos, quan¬do o corpo e a razão nos arrastam para a terra,

temos inimigos invisíveis e imateriais, astutos e

hábeis para nos prejudicar. Temos um único meio

de vencê-los: a constante sobriedade de espírito e

a invocação de Cristo, nosso Deus e Criador. Que

os inexperientes encontrem, na Oração de Jesus, um

excitante para sentir e conhecer o bem. Quanto aos que adquiriram experiência, o melhor ensinamento e a melhor prática do bem consistem em praticá-lo e em repousar nele.

43. A criança sem malícia se deixa seduzir pelo charlatão e, em sua simplicidade, segue-o. Da mesma forma nossa alma, simples e boa — seu bom

Mestre assim a criou — encontra prazer nas sugestões do demônio; ela se deixa seduzir e corre para o malvado, como se ele fosse bom, assim como a pomba corre para o caçador de pássaros que arma arapucas para seus filhotes. Desse modo, nossa alma mistura seus próprios pensamentos a imaginação proposta pelo demônio. Seja o rosto

de uma linda mulher ou alguma outra coisa absolutamente proibida pelos mandamentos de Cristo, a alma procura o meio de traduzir em ato o objeto que viu... Identifica-se então com seu pensamento e executa, no corpo, para a própria condenação, o objeto proibido que viu mentalmente.

44. Assim procede o Maligno; é com essas flechas que ele envenena todas as suas vitimas. Por isso, é mais prudente, enquanto o espírito ainda não possui uma longa experiência da guerra, não deixar os pensamentos entrarem no coração. Especialmente no começo, quando nossa alma ainda sente inclinação pelas sugestões dos demônios, encontra prazer nelas e segue-as com avidez. É indispensável, logo que se percebem os pensamentos, suprimi-los imediatamente, no mesmo instante em que nos atingem e em que os identificamos. Quando o espírito tiver adquirido uma grande experiência desse exercício admirável e souber tudo o que e necessário saber; quando estiver habituado a essa guerra, ao ponto de discernir com exatidão entre os pensamentos; e quando for capaz, conforme a palavra do Profeta, de “apanhar as raposinhas”, então ele poderá dispensar-se a astucia de deixá-los avançar, e em seguida iniciar, com a ajuda de Cristo, o combate de desmascará-los e empurrá-los para fora.

46. A sugestão é o começo. Depois, vem a ligação: nossos pensamentos misturam-se com os do espírito mau. Depois, a união: as duas espécies de pensamentos deliberam e acertam o plano do pecado a ser cometido. Finalmente, vem o ato visível, o pecado. Se o espírito se encontra em estado de atenção e de sobriedade e, através da contradição e da invocação de Jesus Cristo, impede, que a sugestão imaginativa progrida, ela não terá consequências. Porque o Maligno, sendo um espírito puro, para perder as almas, tem apenas a imaginação e os pensamentos...

49. Velai incessantemente para que não haja em vosso coração nenhum pensamento, nem insensato (proibido), nem sensato (permitido): não tardareis a reconhecer os estrangeiros, isto é, os primogênitos dos egípcios.

51. A sobriedade lembra a escada de Jacó, sobre a qual Deus permanece, e que os anjos escalam. Ela destrói todo mal em nós, suprime tagarelice, injúrias, distrações e toda a sua seqüela de paixões. sensíveis. Porque não suporta privar-se da própria suavidade, em favor delas, nem mesmo por um instante.

53. Entre os outros bens que ele vai encontrar no exercício assíduo da guarda do coração, o espírito que não descuida de seu exercício secreto, esvaziará dos pecados exteriores os cinco sentidos do corpo. Inteiramente aplicado a sua própria virtude, desejoso de regozijar-se continuamente em bons pensamentos, ele não se deixará pilhar pelos cinco sentidos, que são o caminho de acesso aos pensamentos vãos e materiais; ele os dominará de dentro, por meio de um vigoroso esforço da vontade.

54. Permanecei em vossa inteligência e não tereis que vos afligir nas tentações. Vós vos afastais dela? Suportai as consequências.

62. Quem quiser purificar o coração, tirará excelente proveito da invocação constante do santo nome de Jesus, contra os inimigos invisíveis; fizemos essa experiência. Vede como as lições da experiência concordam com o testemunho da Escritura: “Prepara-te, Israel, para invocar o nome do Senhor teu Deus” (Am 4,12); e do Apostolo: “Orai sem cessar” (1 Ts 5,17)... Que excelente bem é a oração, que contém todos os outros: ela purifica o coração no qual Deus se manifesta àquele que crê.

68. Quem consagra todas as ocupações em seu interior, é casto. E não é só isso. Contempla, vê Deus, anuncia Deus e ora...

70. Aquele que renuncia às coisas do mundo, como mulheres e riquezas, torna monge o homem exterior; não, ainda, o homem interior. Em compensação, quem renuncia ao pensamento apaixonado dessas coisas, torna monge também o homem interior, isto é, o espírito. Esse é um verdadeiro monge. É bem fácil tornar monge o homem exterior; é só querer. Mas tornar monge o homem interior, requer um árduo combate.

71. Não sei se existe um único homem, em toda a nossa geração, que seja totalmente liberto dos pensamentos apaixonados; um homem que tenha sido gratificado com a oração imaterial e pura, índice e sinal do monge interior.

73. Não reserveis toda a atenção ao corpo; determinai para ele um trabalho proporcional a suas forcas e dirigi o vosso espírito, todo, para o mundo interior; pois, esta dito: “A pouco serve o exercício corporal, ao passo que a piedade é proveitosa a tudo" (I Tm 4,8).

79. ... O Reino dos céus não é a recompensa de nosso trabalho; é um dom gratuito de Nosso Senhor, reservado por ele a seus fiéis servidores. O servidor não reclama a liberdade como recompensa. Se esta lhe é concedida, fica reconhecido, como um devedor. Se ele não a recebe, espera-a, como um testemunho de misericórdia.

86. Das sugestões nos vem todas as espécies de pensamentos; e dos pensamentos o ato sensível, ele próprio, mau. Quem, com Jesus, abafa as primeiras, escapa, pelo mesmo fato, à sua consequência. Enriquece-se com o divino conhecimento, no qual verá Deus presente por toda parte. Colocando diante de Deus o espelho de sua alma, será por ele iluminado — como um puro cristal reflete o sol — quando alcançar pouco a pouco o fim desejável; e ficará liberto de qualquer outra contemplação.

87. Todos os pensamentos penetram no coração através da imaginação de certos objetos sensíveis. A bem-aventurada luz da Divindade ilumina o espírito, quando este se libertou de todas as coisas e de suas formas, se é verdade que esse esplendor se manifesta ao espírito purificado, por meio da privação de todo pensamento.

88. Quanto maior atenção prestardes ao vosso pensamento, mais invocareis Jesus, com fervoroso desejo. Quanto mais descurardes o exame de vosso pensamento, mais vos distanciareis de Jesus. Tanto a primeira conduta ilumina a atmosfera do pensamento, quanto a renuncia à sobriedade e à suave invocação de Jesus tem por efeito natural escurecer o espírito. Isso está na ordem da natureza. Vós o percebereis na experiência e o sentireis na ação. Pois essa virtude — a deliciosa atividade geradora de luz — só se aprende pela experiência.

89. O efeito da invocação constante de Jesus, acompanhada de desejo ardente, cheio de alegria suave, é banhar de júbilo e de paz a atmosfera do coração, graças à atenção rigorosa. Mas a própria purificação do coração não tem outro autor além de Jesus Cristo, Filho de Deus e, ele mesmo, Deus...

90. A alma plenamente satisfeita e docemente consolada por Jesus, reconhece seu benfeitor com amor e alegria; agradece-lhe e invoca com júbilo aquele que a purifica; ela o vê dissipando as imaginações dos espíritos do mal, dentro de si mesma.

92. Quando não resta mais nenhuma imaginação no coração, o espírito se encontra em seu estado natural, disposto a toda contemplação espiritual e agradável a Deus.

Assim, pois, sobriedade e Oração de Jesus completam-se e sustentam-se mutuamente. A atenção perfeita reforça a oração contínua; e a oração, por sua vez, reforça a sobriedade e a atenção perfeitas.

96. A lembrança e a invocação constantes de Nosso Senhor produzem, em nosso espírito, um estado divino, sob a condição de não negligenciar-mos a súplica interior a Cristo, a sobriedade perseverante e o trabalho de vigilância. Apeguemo-nos sempre, sem descanso, ao exercício da invocação do Senhor Jesus; que o chamemos com coração ardente, de maneira a comungar com o santo nome de Jesus. Pois, em matéria de virtude, como de vício, a continuidade gera o hábito e o hábito é uma segunda natureza.

97. Toda vez que os maus pensamentos comecem a pulular em nós, lancemos bem no meio deles a invocação de N. S. Jesus Cristo, e os veremos dissipar-se, incontinenti, como fumaça no ar. Uma vez sozinho o espírito, retomemos a atenção e a invocação constantes, e toda vez que a mesma coisa se repita, façamos o mesmo.

98. É impossível viver sem respirar... é igualmente impossível, sem humildade e sem perpétua suplica a Jesus, aprender a ciência do combate espiritual secreto e afastar com método os nossos inimigos.











SEGUNDA CENTÚRIA





1. O esquecimento extingue a guarda do espírito, como a água extingue o fogo. A oração contínua de Jesus, aliada a uma ativa sobriedade, acaba por dissipar do coração o esquecimento. Pois a oração tem tanta necessidade de sobriedade, quanto uma lâmpada precisa de mecha.

Dispensam-se todos os cuidados para preservar o que se tem de precioso. Ora, não possuímos outro bem realmente precioso, além daquele que nos guarda, tanto quanto possível, de todo mal espiritual. É a obra da guarda do espírito, unida a invocação de Jesus; em outras palavras, com olhar sempre fixo nas profundezas do coração e com uma paz (hesíquia) perpétua do espírito. Direi mais: devemos fazer um esforço para nos esvaziarmos até dos pensamentos que pareçam vir da direita; e, de maneira geral, de todos os pensamentos, pois ladrões poderiam emboscar-se neles. O exercício que consiste em não abandonar o coração é árduo, sem dúvida, mas o repouso esta próximo.

3. O coração constantemente guardado, cujo acesso é proibido às formas, imagens e representações dos espíritos tenebrosos e maus, gera naturalmente pensamentos luminosos. O carvão produz chama; quanto mais Deus, que habita o nosso coração desde o santo batismo. Se ele encontrar puro o ar de nosso pensamento, sem sopros do mal e guardado pelo espírito, iluminará nosso poder de intelecção para a contemplação, como a chama ilumina o círio.

4. Não cessemos de fazer voltear o nome de Nosso Senhor Jesus Cristo nos espaços de nosso coração, como o relâmpago volteia no firmamento, quando a chuva se anuncia. Aqueles que têm a experiência do intelecto e de seu combate interior, sabem disso. Temos de conduzir com ordem o combate, como se organiza uma batalha: primeiro, a atenção; depois, quando o inimigo projeta contra nós um mau pensamento, expulsá-lo com ira, através das palavras de maldição de nosso coração; em terceiro lugar, amaldiçoá-lo, reunindo as forcas do coração, na invocação de Jesus Cristo, para que a mentira do demônio se dissipe e o espírito não queira correr atrás da imaginação, como a criança iludida quer correr atrás do charlatão.

5. Limitemo-nos a clamar: “Senhor Jesus Cristo”, ainda que esgotemos a voz nesse chamado; e que nossos olhos não cessem de se dirigir para o céu, a espera de Nosso Senhor (cf. Sl 69,4)...

6. Quem olha fixamente para o sol, necessariamente terá os olhos atingidos pela radiação. De modo semelhante, quem não cessa de penetrar na atmosfera do coração, só poderá ser iluminado.

11. Praticada convenientemente, a pureza do coração — ou seja, a vigilância e a guarda do espírito, cuja forma é o Novo Testamento — suprime do coração todas as paixões e todo mal. Ela extirpa o mal, para substituí-lo por alegria, boa esperança, contrição, compunção, lágrimas, conhecimento de nós mesmos e de nossas faltas, lembrança da morte, verdadeira humildade, amor incomensurável por Deus e pelos homens e ternura divina do coração.

30. A prática sensata da tranquilidade do coração descobrirá a visão de um abismo vertiginoso; o coração em repouso (hesíquia) ouvirá de Deus coisas extraordinárias.

35. A Oração de Jesus, unida a sobriedade dos pensamentos profundos do coração, apaga os pensamentos que se estabeleceram nele contra nossa vontade.

46. O fato de suspender todo pensamento parece difícil e penoso; efetivamente, é árduo. Encerrar e limitar o incorpóreo no corpóreo não é rebarbativo apenas para os que não entendem nada do combate, mas também para os que adquiriram a experiência da luta íntima e imaterial. Aquele que se impregnou de Cristo Jesus, por meio da oração constante, não mais sofrerá para segui-lo... por causa da beleza e da doçura de Jesus, ele confundirá seus inimigos (os demônios ímpios que giram em torno dele), quando lhes falar às portas do coração; e, por Jesus, irá fazê-los bater em retirada (cf. Sl 127,5).

50. Comecemos pela atenção do espírito; acrescentemos humildade e sobriedade, oração e contradição, e caminharemos venturosamente pelo caminho do espírito. Iluminados pela lâmpada do nome adorado de Jesus Cristo, purificaremos e adornaremos a casa de nosso coração. Se contarmos exclusivamente com a sobriedade e a atenção, logo nos deixaremos empurrar e derrotar pelos inimigos. Vamos ser dominados por esses pérfidos, vamos nos emaranhar na rede dos maus pensamentos; e, depressa eles conseguirão condenar-nos à morte, porque nos terá faltado a arma poderosa, o nome de Jesus. Somente essa santa arma, erguida continuamente num coração que se tornou simples, poderá derrotá-los.

51. A obra incessante da sobriedade, mas também o grande proveito da alma, é ver as imaginações dos pensamentos, no momento exato em que se formam no espírito. A obra da contradição é revelar e refutar o pensamento desejoso de se introduzir na atmosfera de nosso espírito, através da imaginação de um objeto sensível. Mas o que apaga e dissipa no mesmo instante qualquer pensamento do adversário, qualquer raciocínio, qualquer imaginação, aparência ou imagem... é a invocação do Senhor.

53. Lembremo-nos da morte, sem cessar, se for possível. Essa lembrança determina a exclusão de toda preocupação vã, a guarda do espírito e a oração constante, o desapego ao corpo, o ódio ao pecado; na verdade, toda virtude ativa nasce dela. Devemos praticá-la, se for possível, como respiramos.

54. O coração livre das imaginações acaba por produzir, em si mesmo, santos e misteriosos pensamentos, como se vê, no mar calmo, saltarem os peixes e piruetarem os golfinhos.

61. Longa experiência e observação ensinaram-nos isto: aos pensamentos simples e isentos de paixão, seguem-se os pensamentos apaixonados. Os primeiros abrem a porta aos segundos.

64. Quando, fortificados no Cristo Jesus, começamos a avançar, seguros, na sobriedade, uma luz se nos mostra. É, primeiramente, em nosso espírito, uma lâmpada que, por assim dizer, levamos nas mãos e que nos guia pelos atalhos da alma; depois, como que uma lua resplandecente, que executa sua revolução no firmamento do coração. Enfim, Jesus nos aparece como um sol que irradia a justiça, isto é, revela-se como o outro sol, com a luz absolutamente pura de sua contemplação.

68. ... É tão impossível ao sol brilhar sem luz, quanto ao coração purificar-se da mácula dos pensamentos de perdição, sem a invocação do nome de Jesus. Se assim é, como assegura minha experiência, prefiramos esse nome com a mesma frequência com que respiramos. Porque este é a Luz e aqueles, as trevas.

69. ... A guarda do espírito ultrapassa as virtudes corporais mais elevadas, por mais numerosas que possam ser, reunidas no mesmo homem. Devemos, portanto, àquela virtude, os nomes mais magníficos... O poder de Cristo transforma os que o amam, de pecadores, de homens maus, ignorantes, impuros, injustos, em homens justos e bons, santos e sábios. Melhor: eles são admitidos na contemplação dos mistérios, nadam na luz absolutamente pura e infinita, experimentam sua indescritível carícia, habitam-na e vivem nela...

72. A oração monológica mata e reduz a pó as suas tentações. Jesus, Deus e Filho de Deus, invocado por nós com ininterrupta assiduidade, não tolera nem mesmo que a primeira entre as primeiras sugestões se mostre ao espírito, no espelho interior, nem dirija a palavra ao coração.

73. A oração contínua limpa a atmosfera da alma das nuvens sombrias. Uma vez purificada dos sopros dos espíritos maus a atmosfera do coração, é impossível — foi dito — que não brilhe para ele a divina luz de Jesus. Porém, se ele não se encher de orgulho, de vaidade e de presunção.

80. Quereis sinceramente cobrir de vergonha os vossos pensamentos, viver numa quietude sem esforço, exercer facilmente a sobriedade do coração? Que a Oração de Jesus adira a vossa respiração e vós o conseguireis dentro de pouco tempo.

87. Uni ao movimento de vossas narinas a sobriedade, o nome de Jesus, a meditação da morte e a humildade: todos são muito úteis.

94. Sem nenhuma dúvida, é bem-aventurada a inteligência a qual a Oração de Jesus adere assim; o coração que não cessa de ressoar o nome de Jesus, como o ar adere a nosso corpo e a chama à cera. O sol percorre a terra e faz o dia; o santo nome de Jesus, não cessando de brilhar na inteligência, produz inúmeros e resplandecentes pensamentos.

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